Uma das questões mais controversas a respeito do início da Educação a Dis­tância (EAD) no Brasil está na definição da data de seu início. Para alguns, ele se deu com Roquette Pinto que, por meio da transmis­são radiofônica, buscava levar, além da informação, educação ao povo brasilei­ro. Para outros, a EAD co­meçou com o húngaro Nicolás Goldberger que, em 1939, concretizou no Brasil a idéia que teve quando ainda morava na Argentina: criar uma esco­la por correspondência. Anos mais tarde, a iniciativa de Goldberger se tor­nou o maior instituto de Educação a Distância da América Latina e, por isso, ela é considerada por mui­tos como a pioneira no Brasil.

Sendo assim, podemos dizer que, em 2009, a Edu­cação a Distância come­mora 70 anos em nosso país. Creio que a 'idade' assusta os que tiveram seu primeiro contato há poucos anos ou meses. Imagi­no que seja expressivo o número de pessoas que ig­norem os caminhos que a EAD já percorreu e, por isso, tomem —na como algo inovador. Mas a verdade é que ela é muito mais anti­ga do que parece. No en­tanto, ainda guarda o fulgor da juventude, com po­tencial enorme para alcan­çar muitos territórios em nosso imenso país.

Quando Goldberger fundou o Instituto Rádio Técnico Monitor, ele o fez porque teve uma atitude visionária. Sabia que, em plena era do rádio, um cur­so que se propusesse a transmitir informações su­ficientes para o conserto de uma variedade de equipamentos de transmissão não tinha outro caminho que não fosse o sucesso. A oferta de produtos como aparelhos de rádio, amplificadores, etc. era maior do que a quantidade de profissionais para consertá-los. Faltava informação e, conseqüentemente, faltavam profissionais. A criação da escola, portanto, vinha atender a essa demanda específica, oferecendo uma alternativa de profissionalização que para muitos se­ria promissora.

O método era inovador: o material didático seguia pelo correio juntamente com kits compostos por ferramentas, um aparelho de medição e componentes para a montagem de um rá­dio de oito válvulas. Era o "Aprenda Fazendo" que permitia um aprendizado rápido e eficiente, visto que o aluno poderia colocar em prática a teoria. Creio que aqui vale um parêntese para a mais importante caracte­rística da Educação a Dis­tância: a democratização. O acesso à instrução passou a ser de todos, em qualquer lugar do Brasil. Alunos do interior, dos centros desen­volvidos das cidades passa­ram a receber a mesma edu­cação, o mesmo ensino, a mesma informação, depen­dendo apenas do próprio esforço para se destacar. Esse livre acesso fez a ini­ciativa de Nicolás criar raízes, crescer e dar os fru­tos que estamos colhendo mais de meio século depois.

Mas permitam-me dar um salto de 40 anos nessa história. Em 1985, um admirador da metodologia de Educação a Distância, ex-aluno, comprou o Instituto Rádio Técnico Monitor. O primeiro contato com o que ‘restou’ da escola de Goldberger, que já tinha sido vendida em 1977 para um grupo de funcionários, foi decepcionante. O ce­nário era de total abando­no, móveis velhos, docu­mentos perdidos, desordem geral. Foi preciso muito trabalho para colocar a casa em ordem e transformar o Instituto Monitor em uma das instituições mais res­peitadas de Educação a Distância do país.

Hoje, passados quase 25 anos, ao olhar para a nossa história, para os 5 milhões de alunos matriculados, para as milhares de vidas transformadas, acreditamos que ainda mantemos vivo o sonho de Nicolás Goldberger. Imaginamos o quanto ele ficaria maravi­lhado se visse seus fascícu­los sendo publicados na Internet, com acesso a pessoas de todo o mundo. Às vezes, quando me reúno com minha equipe para tra­tar dos cursos superiores que pretendemos oferecer ou mesmo dos cursos online que, em breve, es­tarão à disposição, ou ain­da, quando ando pela obra da nossa nova sede, seis ve­zes maior do que o prédio da rua Timbiras, que foi comprado por Goldberger, fico pensando como seria se nosso fundador pudesse participar de tudo isso. Em cada credenciamento que obtemos, em cada reco­nhecimento por parte do mercado e órgãos de classe que conquistamos, vejo a mão de Nicolás Goldberger, que iniciou tudo isso, com a certeza de que estava apenas dando os primeiros passos de algo que se tor­naria muito maior do que seu próprio projeto.

Ao mesmo tempo, estamos sempre nos ques­tionando a respeito da qualidade dessa Educação, do compromisso daquilo que é transmitido com a profissionalização de quem estuda. Ao tomarmos co­nhecimento dos diversos cursos autorizados diaria­mente no país voltamos nossa mente ao passado e ao compromisso que Goldberger tinha com seus alunos: "aprender para fa­zer". Será que esses cursos partem dessa premissa? Será que nossos legisladores têm isso em suas mentes ao es­tabelecerem as regras para a EAD no país? Será que nós, que trabalhamos com a educação das pessoas, te­mos consciência do nosso grau de responsabilidade com seu futuro e de suas famílias?

Creio que os 70 anos que estamos comemorando lan­çam sobre nós muitos questionamentos sobre os rumos da Educação a Dis­tância no Brasil. E esse é o momento certo para avaliar.

Roberto Ralhares é economista, presidente do Conselho Diretor do Instituto Monitor Ltda, atua em EAD desde 1974, autor de inúmeros trabalhos e palestras sobre o assunto. Responsável pelas operações brasileiras da ICS - International Correspondence Schools, escola fundada em 1891 na Pennsylvania - EUA, atuando no Brasil no segmento de EAD em ensino superior, principalmente na área de engenharia, durante o período de 1982 até 1996. Responsável por projetos de credenciamento de instituição e autorização de funcionamento de cursos nas áreas de Educação de Jovens e Adultos e Ensino Técnico de nível médio na modalidade EAD no Conselho Estadual de Educação dos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Coordenador da mesa redonda "EaD e Educação Fundamental, Média e Tecnológica" do X Congresso Internacional de Educação a Distância. Foi diretor de Relações com o Mercado da ABED - Associação Brasileira de Educação a Distância, período 2003/2007. Editor do Anuário Brasileiro e Estatístico de Educação Aberta e a Distância - ABRAEAD 2005, 2006, 2007 e 2008. Mediador de mesa redonda no 52. FUP- "A Universidade do Futuro" em setembro de 2007.

Avaliar antes de comemorar

Matérias publicadas no Caderno Especial sobre Educação a Distância do Jornal dos Concursos & Empregos - Abril 2009.